sábado, 23 de fevereiro de 2013

ASTROLÁBIO - LANÇAMENTO OFICIAL NO 27° SALÃO INTERNACIONAL DE GENEBRA






CONFIRMADO: FESTA DE LANÇAMENTO OFICIAL EM GENEBRA


Para os puros e mansos de coração, independente de qualquer moral imposta.

Para os verdadeiros de alma, os que sabem ser responsáveis pelas rosas.

Para os jardineiros que amam as flores sem saber o valor que elas têm, se têm, amam apenas pela beleza da flor e pelo instinto natural do cuidado.

Para os que não têm medo de serem sinceros, de serem julgados por serem sinceros, que não se utilizam da bondade humana para tirar vantagens e não desonram a raça humana com artifícios, que, mal sabem, poderiam ser nem lembrados.

Para as personagens descritas nas letras das minhas músicas que contam suas histórias me fazendo cantar.

Em especial, para minhas amigas e amigo:
VivianePasquier, FernandoCanova, ArelineFatiga, AlessandraSilva,  KarinaSonic e
IrmãSelita (in memorian)
Vocês são parte da minha alma.Quantas vezes já a salvaram!

E para todos que me casaram, um dia ou outro, com a arte, salvando este amor eterno tantas vezes.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

LADRÕES DE ESTAÇÕES


Vejo em mim
Que minha estação
É lua cheia,
Não estou em época de plantio.
Em novembro havia em mim
Tanta primavera
E eram ricos os mananciais.
Por que deixei se aproximarem de minhas flores
Os galhos secos  despidos de flores
E que, até então,
Só conheciam da água o visgo violento
Das curvas dos rios?

Vejo em mim
Que queimei o verão
Em praias que eu sabia serem duvidosas
E, mesmo assim – por que não? –
Eu lhes garanti o sol e o sustento
E a possibilidade de terem turistas
Por todo um verão.
Em dezembro se fez o outono
Rico em seiva
E alimentei
Os galhos secos que não podem
Se erguer mais,
Que não podem sofrer
Uma transfusão de seiva,
Que nunca souberam o que é seiva,
Mas que ávidos beberam
Da seiva farta
Do meu seio farto e doce,
Como vampiros que bebem o sangue de menarcas
Sabendo nunca saciarem suas sedes
E que suas asas podres só voam
Por conta do sangue alheio.

Quando amanheci
Na lua nova,
Já é inverno:
Encho minha banheira feita de sal
Com água quente
Para aquecer meu útero,
E me sentir de novo em útero seguro.
Recupero a energia
Que a ti mantinha
E que agora não tens mais.
Quando, na crescente, o primeiro galho rachar
Tu saberás o que é
Não poder contar com a minha primavera.
Torno a ver-te em uma hospedaria mísera
Sem sangue e sem sal,
Foto indistinta de uma luz amarelada...

Não é meu inverno época de plantio,
Mas de retomada.
Não me fazem falta as estações puladas,
Delas sinto apenas o ardor confuso
Causado pela diferença dos fusos horários
Que o sol estabelece entre as estações.
Nunca me farão falta estas estações,
Só as pude dar porque era o que havia em meu coração.
Dele, também, tiro as fibras para a roupa deste inverno de fevereiro
Coso as veias do sangue que se doava
Para curar tua leucemia emocional,
Fecho meu campo magnético
Que fluía para tentar fechar
As chagas do teu desespero.

Vejo em mim que
Eu sabia que tratava com corsários,
Mas não sabia que havia ladrões de estações.

©leoniaoliveira (all rights reserved in TRIGO)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

COMBOIO


Há moças em comboios,
Sabotadas por seus pais.

Este trem passa ligeiro
Não há carinho
Em seus trilhos
E, se acaso deste abuso,
Tiveram filhos
Que filhos seus filhos terão?

Há moças em ventanias
Jogadas por suas mães.

Esta ventania é suja
Entra areia no olho
E os olhos de suas mães
Nunca quiseram ver
Ou gostavam do que viam.
Que mãe seriam as mães destas filhas?

Há moças em vilarejos
Trancafiadas por seus parentes.

Este vilarejo dá arrepio
Tem um segredo aberto
Numa vala de água podre
E na vala estão os parentes,
Bebendo da água podre,
Usando macacões de ferro
Para calar-lhes a boca.
Que parentes seriam parentes
De moças trancafiadas?

Há moças na correnteza
Afogadas por seus irmãos

E esta correnteza não possuiu barulho
Corre rápida,
Impetuosa,
Volumosa
E se as moças acaso falam
A correnteza lhes afoga a voz.
Que irmãos teriam irmãos
De moças com bocas surdas?

Há moças deitando nos trilhos
Postadas por suas mães

Cortando as pernas os trilhos,
Cortando os cabelos os trilhos,
Cortando os sonhos os trilhos,
Cortando a mentira de ser filho
De uma mãe com mãos
De aço,
Que a desliza nos seus corpos
Como que sentindo asco.

Há moças enclausuradas
Nas prisões de suas mentes

São mentes que brilham às vezes
Às vezes lembram demais
Às vezes gritam que mentem
Às vezes ainda sentem
Às vezes mentem
Não mais.

©leoniaoliveira

domingo, 27 de janeiro de 2013

MILHO


Eu sou o milho
E canto uma canção de raiva
Uma canção calçada em uma sinfonia
De metralhadoras.
Olho pros milharais e vejo
A condição de segunda espécie
A que tentam me relegar
E os milharais condicionados a não conhecerem a sua história
Nem se dão conta
Do que são
E, mesmo a sabendo, não poderiam lutar.

Eu sou o milho e canto uma canção de ódio
Deste  aparente desprezo
Que a civilização quer me dar.
Eu entrei na carne do homem
E compus os maias
Eu sou o milho e canto uma canção pagã.
De tanto conviver com a humanidade
Tenho dela o mais comum dos desejos:
Quero que alguém pague pela minha dor
Não fui eu o Cristo na última ceia,
Eu sou o Cristo servido na ceia.
Dos traidores.
Mas não canto a canção de Cristo
Canto a canção dos Fariseus
A canção que quer se vingar
Pela colheita que se perdeu.

Eu sou o milho
E canto uma canção de fome e barro
Da fome que atinge
Aos que são ultrajados
Do barro que macula
A minha raiz.
Nem mesmo quando verde ou pequeno sou poupado
A tudo de mim consomem,
Mesmo meu esqueleto quando seco ainda queimam
E fazem fantoches com as minhas palhas...
Eu sou o milho e
Canto uma canção de fome.


Fui feito para cantar a canção dos que são usados
Dos que servem por ignorância,
Medo
Ou escravidão.

Não posso modificar meu DNA,
Minha genética é carnificinada pela humanidade
Para que eu seja o milho,
A experiência.

Eu sou o milho
E canto uma canção de dor
Dos que se sentem traídos
Pela sua própria criação.


©leoniaoliveira (all rights reserved in TRIGO)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

2ª Edição do GUIA PRÁTICO DO PIOR VENDEDOR DO MUNDO ganha distribuição internacional

 BookCover Prewien




Lançado em 2008, este meu único livro de "quase" não ficção ganha a partir de sua 2ª edição, em parceria com a  Amazon.com  distribuição internacional, formato papel e kindler.


Disponível em todos os canais de distribuição da amazon.com  e também em:
Guia Prático do
Pior Vendedor do Mundo

Um divertido manual sobre
‘refinadas técnicas’
de vendas e outras que você
nem imagina


Leonia Oliveira


2ª edição – janeiro/2013

Sinopse - Guia Prático do Pior Vendedor do Mundo - Leonia Oliveira


A gente não quer te assustar, mas este Guia Prático do Pior Vendedor do Mundo é o impressionante, emocionante, arrepiante e profundo relato de uma expertise em negócios, Leonia Oliveira.

Com mais de quinze anos de experiência como ex-diretora comercial e de marketing de alguns dos maiores shopping centers do Brasil, além de consultora, conferencista e instrutora de inúmeros cursos voltados à gestão de pessoas e bussines, Leonia pôde desenvolver e trabalhar com o que ela intitula auditoria de varejo, uma espécie de espionagem que detecta o porquê de um estabelecimento não estar vendendo bem, seja por motivos que vão desde a vitrine até o necrotériodas mercadorias, vulgarmente conhecido como estoque passando, invariavelmente, pela cultura de atendimento, a ênfase deste livro.

Em outras palavras, porque não se vende e, quando não se atrapalha, alguém, muito decidido, compra.

Irreverente, irônica, dona de um humor cortante e extremamente criativa, a autora - uma das poucas mulheres do mundo a escrever sobre este assunto - focou neste oportuno guia o comportamento humano e as técnicas profissionais na área de vendas, desde a pré até a pós venda, passando por mais de 10 itens que compõem a fragmentação da negociação em vendas tais como a satisfação das necessidades dos clientes, objeções, fechamento, venda adicional, prospecção, perfis de vendedores, entre outros.

Aqui o vendedor é virado do avesso para se demonstrar o que se faz e como não se deve fazer.

O GUIA PRÁTICO DO PIOR VENDEDOR DO MUNDO é um livro que se lê de uma sentada e com muitas risadas, e que se lança para a edificação de todos os leitores profissionais de vendas ou não, com preciosas contribuições para a perfeita visão deste alucinado e agitado mundo das vendas.


 Serviço

List Price: $15.00
5" x 8" (12.7 x 20.32 cm) 
Black & White on Cream paper
90 pages
ISBN-13: 978-1481954945 (CreateSpace-Assigned)
ISBN-10: 1481954946
BISAC: Business & Economics / Sales & Selling / Management
Produzido e distribuído pela Amazon Company




Disponível em formato paperbook e kindle:

 - CreateSpace eStoree: https://www.createspace.com/4127776
- http://buscapdf.com.br/procurar/?t=guia+pratico&ws=am
- http://www.biblio1.com.br/resultado.php?ISBN=9788561590338 (1ª edição)
- http://www.amazon.com.br/Guia-Pr%C3%A1tico-Vendedor-Mundo-ebook/dp/B00B14SA7Y
- http://www.livrariacultura.com.br/Produto/Busca?Buscar=leonia%20oliveira
- http://www.amazon.it/s/ref=nb_sb_noss?field-keywords=leonia+oliveira&tag=elettroconfro-21
- http://www.amazon.it/s/ref=nb_sb_noss?field-feywords=guia+pr%C3%A1tico+do+pior+vendedor+do+mundo&tag=elettroconfro-21
- http://pdfcast.org/paid/9781481954945
- http://www.amazon.com/Guia-Pr%C3%A1tico-Pior-Vendedor-Mundo/dp/1481954946
- http://buscapdf.com.br/procurar/?=guia+pr%C3%A1tico+do+pior+vendedor+do+mundo&x=-767&y=-50&lr=&ws=am
-http://books.blogkindle.com/GUIA+PRTICO+DO+PIOR+VENDEDOR+DO+MUNDO+(Portuguese+Edition)-f37c73ae040461104143593dde
- http://www.saveontextbooks.net/textbooks/isbn/9781481954945
- http://www.amazon.it/s?_encoding=UTF8&field-author=Leonia%20Oliveira&search-alias=english-books
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- http://www.amazon.ca/Guia-Pr%C3%A1tico-Vendedor-Mundo-ebook/dp/B00B14SA7Y/ref=sr_1_4?s=books&ie=UTF8&qid=1363222213&sr=1-4
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- http://www.amazon.it/s?_encoding=UTF8&field-author=Leonia%20Oliveira&search-alias=english-books
- http://www.amazon.co.jp/Guia-Pr%C3%A1tico-Vendedor-Mundo-ebook/dp/B00B14SA7Y



e outros






sábado, 5 de janeiro de 2013

A GUERRA DOS LOBOS


Velho ferreiro com seu machado,
Procura a árvore que maior fogo garanta
Ao trabalho de duração de uma novena que a forja terá.
Minhas vestimentas e instrumentos serão feitos
E  não pode esperar a encomenda.
A guerra dos lobos começa
E lhe peço, senhor curtidor,
Um couro macio para acolchoar
O elmo que protegerá minha cabeça
Nesta batalha,
Um couro de touro que não aos lobos tema.
De Creta, os fios que sobraram do novelo de Ariadne,
Mandei vir à senhora cosedeira para tecer
A túnica que usarei por baixo de todo artefato,
São fios de cascas de ciprestes que convivem com lobos
E não os temem.
Deste fio nascerá um linho e minha camisa branca.
A malha que me guarnecerá o corpo
Já está em processo de feitio,
Usando os fios de aço como se a urdidura da seda tivessem
De modo que nem um uivo
Meu coração escute
Dos lobos com que vou me debater.
Na forja em chama o ferreiro derrete
O ferro amianto com que me faz as placas
Da armadura que usarei por cima.
Tira-as e na bigorna, como se a obra em negro fossem,
Dá-lhes golpes de martelo
Para que aprenda a não se render.
Nas mãos as luvas de couro e aço
Seguram a espada que sai do cocho
Com o peso de uma arroba
E o fio de uma navalha.
Finda a novena de preparativos
Visto-me toda e parto à guerra.
Cavalos eu não preciso,
Nem uma outra montaria,
A guerra será dentro de mim:
Entre o lobo ártico que eu alimento
Na certeza que é o lobo bom
E o lobo que os que tentam me enganar alimentam
Sem saberem que se trata de um lobisomem.
Não sabem os que tentam
Ao meu lobo ártico ferir,
Que ao lobisomem alimentam
E este os quer destroçar.
Assim, em tais vestais me enfurno
E parto para minha própria caverna.
E já não tenho certeza a que lobo eu me aliarei:
Se ao lobo ártico que é fiel e não comete atrocidades,
Embora lhe cometam. Belo como um cão ártico atento sobre a neve.
Forte como um urso polar, alimentado pelos meus sentidos.
Feroz como a leoa que me define.
Ou  ao lobisomem alimentado que quer devorar quem os alimenta.
De forma que neste combate,
Esteja eu protegida,
Com a vestimenta feita durante uma novena
E vença qual lobo vença,
Que de mim eu saia viva
Agindo, então, como lobo dentro de imbatível armadura
Para praticar a ordem do que foi mais alimentado.

©leoniaoliveira (all rights reserved in TRIGO)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O FIO DE ARIADNE - SEGUNDA EDIÇÃO



                                    BookCoverPreview - 2ª edição O FIO DE ARIADNE


Lançada a segunda edição revista de O FIO DE ARIADNE, trazendo junto consigo o lançamento do meu selo editorial.
Disponível em formato papel e kindle. Acesse:
www.amazon.com/s/ref=nb_sb_ss_i_0_9?url=search-alias%3Daps&field-keywords=leonia+oliveira&sprefix=leonia+ol%2Caps%2C717

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FANFARRAS, PÍFAROS E CONTRABAIXOS



Meu coração é uma fanfarra
Com seus chocalhos e repiques,
Cornetas que alardeiam minhas faces
E zabumbas que trovejam a minha voz
Em cantos doces, em caixas de guerra,
Em pratos e surdos.
Ele não desfila em serviços militares,
Nem faz as honras em comemorações cívicas,
Cambaleoteia tocando e fazendo coreografias,
Mas ao simples apito do guarda de trânsito,
Descompassa.

Meu coração é uma banda de pífaros
Com sete orífícios circulares
Bombando músicas e poemas
E também a prosa em trocadilho
Com o tarol e se alguém canta uma canção nefasta
Se algum badalo de gado soa,
Meu coração descompassa.

Meu coração é uma orquestra sinfônica
E sente todos os holofotes,
De todos os instrumentos da orquestra é
Mais meu coração o holofote
Que empresta a luz para mostrar a orquestra.
Uma luz solista, de violinos e pianos,
De que valeria a orquestra sem que uma luz
Lhe fosse o dínamo da apresentação em noite de gala?
Meu coração maestro também
Não sabe viver sem que lhe dirijam os holofotes
E se alguém ameaça redirecionar a luz
Meu coração distoa.

Meu coração é a bateria de uma escola de samba,
Um imenso mar de ritmos e também
É o samba enredo e o carnavalesco
Que constrói os mitos
Que projeta estrelas
Por uma noite,
Embora a madrinha desta bateria não veja que só existe por que meu coração
Traz o enredo, o samba, o ritmo
Se alguém colocar algum obstáculo para alcançá-la,
Meu coração erra na paradinha
E o samba desanda. 
De que servirão os adereços das estrelas, então, nos outros dias?

De fato, meu coração não é mais que uma banda de Jazz
E só sabe tocar uma música,
Toca em todos os tons de jazz a mesma música
E todos pensam se tratar de músicas diferentes,
Mas é a mesma.
Ele tem a fidelidade do meu nome.Uma fidelidade leonina.

Meu coração tem medo que lhe tirem o som
Que lhe acordem,
Que lhe digam que um coração não pode ser
Uma fanfarra, uma orquestra, uma harmonia,
Que consigam lhe provar esta impossibilidade.
Penso mesmo que ele projeta um mundo
E como não sabe falar 
Empresta-me esta  poesia para explicá-lo.

Esta poesia dói, porque meu coração é um trio de chorinho neste momento.
Pode-se notar os cortes que nele se abrem e a vontade que ele tem
De continuar fornecendo luz,
De ser o neon do cavaquinho,
E a vontade que ele tem de apagar a luz,
Porque sabe como encerrar o show.

E ele, é bom que se diga,  empresta sons
E consegue anulá-los se se sentir usado.


Acho que meu coração é um contrabaixo.

©leoniaoliveira

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

TRIGO


Eu sou o trigo
E canto uma canção selvagem.
Nasço aonde nasce o pão
Que se consome
E eu não pedi
Para que descobrissem meu sabor.
Nesta geração de trigais
 Nenhum sabe como meu sabor
Foi descoberto
Como e por quem.
Quem de fato provou o primeiro grão de trigo,
De onde veio,  se já estava aqui.
Eu sou o trigo
E canto uma canção selvagem
Enquanto o vento passa pelos trigais,
Uma canção assim de tristeza por ter sido domesticado
E servir agora para ser o pão, a massa, a farinha e a rosca.

Eu sou o trigo e eu sou o ceifador
Canto assim uma canção de posse,
De foice,
De escada,
De martelo,
De corda amarrando o feixe.
Que pode o trigo contra o ceifador?
Melhor ser o trigo e o ceifador
E sendo os dois, ser um só,
Aquele que se ceifa e se enfaixa
E não se importa muito com as botas ou com as mãos
Com os riscos criados pelos cortes nas mãos
Sem luvas e sem cuidados
Eu sou o trigo e o ceifador
Por isso sei a dor do trigo
E sei a fome do ceifador
A força que há na ceifeira
O lenço molhado de suor sob o chapéu.

Eu sou o trigo e sou o forno
E canto uma canção de amor
Quando moído, massacrado e estendido,
Colocam-me a fazer a massa
A fazer a massa de fazer o pão.
Sendo forno e sendo trigo
Sofro da mesma canção.
E assim achamos bonito
Alimentar os que nos queimam e moem
E dilaceram nossa existência
Por conta de sua fome,
De sua gula,
De suas receitas
Aonde nos precisam e nos querem enfiar.
Eu sou o trigo e sou o forno
E canto uma canção de amor
E nem me lembro de onde vim
Que era livre e selvagem
E fui domesticado como um cão.
Não sei quem fez isto
E o forno não sabe quem lhe deu tal feitio de caverna agrária.
Por isso esta canção que cantamos é um fado
De além-terra, além-planeta, além-galáxia,
Pensamos que podemos ser de outra natureza,
Criados em outra civilização,
Que fomos imputados a este convívio
Dos que precisam do trigo e do forno
Para lhes fazer o pão.

Eu sou o trigo e eu sou o pão
E canto uma canção de inventário:
Saciada a fome o faminto nem se recorda
De haver ingerido trigo ou pão.
O faminto não conhece a inteligência do trigo
Muito menos as conversas entre o trigo, a foice e o forno.
Imagina que não fosse a sua fome
Não haveria utilidade para o trigo.
Eu sou o trigo e eu sou o pão
E canto uma canção de inventário
Narrando tudo à natureza.
Narro minha história a mim mesmo
E súbito me surpreendo por conhecer minha genética
E os modelos do meu DNA,
Por saber como alterá-los
De forma a fazer com que o faminto
Nunca mais encontre trigo e pão.

Eu sou o trigo
E se assim o fizer
Que achem outro grão.
Canto uma selvagem canção de amor:
Não me é importante ser necessário, porque sou necessário.
Porque me elegeram a este grau
E me relegam achando-se necessários para mim.
Se me decodifico estão libertos a foice, o forno e a massa,
E toda comitiva que transita ao redor da colheita à mesa.
E o faminto não terá mais meu grão.

Eu sou o trigo
Eu sou o pão.

©leoniaoliveira all rights reserved in TRIGO)

sábado, 24 de novembro de 2012

DE VAGO CAPIM CHEIROSO


de vago capim cheiroso
um poema mosto.
moço, que tens na cesta
que ora debruças por esta renda?
trazes coqueluches de marselle
e despejas riquezas em pratos limpos.
moça, que tens nas rendas
que ora guardas por esta cesta?
são peças raras, mil oferendas
de centopeias e amores bestas.
©leoniaoliveira

sábado, 3 de novembro de 2012

AUTO RETRATO II

minha timidez,


quem a descobre?

se sou feito um sino

com badalo de cobre

e bato as horas

e conto o tempo

e corro moinho e catavento.

mas quem chegar perto

e não tiver medo da minha

quase séria distância,

quem souber entrar

delicadamente

nota:

uma nota si,

um tom bemol,

um sustenido maior;

este som de golfinho

que acompanha meu ritmo

e o canto que as baleias emprestam

para comunicar o infinito.

modo meu, treinado cedo

para palcos e poesias...

não sou a personagem muda em cena

sou a cômica.

rir é mais fácil para os tímidos.



©leoniaoliveira

PEQUENO CANTO DE SEDUZIR ESTRELAS

deve ser porque


tenho uma sensação de barco

que penso que as estrelas

podem ser cantadas

sem compromisso outro

que não seja o canto.

um vazio-largo que se me apodera

nos brancos descritos

pelas cartas náuticas.

uso o meu veleiro

como leme e como vela

e como rede a pescar estrelas.

sendo no céu seus paradeiros,

deito no mar a linha alfabética.

se são elas sereias boas

a nos confundir com sua luminosidade

possuo a prosa e todas as letras combinadas

para lhes atrair o olhar.

não há necessidade de desnudá-las

para lhes perceber a existência.

não há necessidade de condená-las

para lhes observar a luz.

não há mesmo necessidade da poesia

para descrevê-las. nem mesmo o canto é preciso.

não há necessidade do disfarce do escuro

para lhes notar o brilho

aos que percebem estrelas como eu.

©leoniaoliveira (all rights reserved in TRIGO)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O REI ZINHO VAI À GUERRA

- Declaro a guerra. A guerra está declarada. A partir deste instante este reino se acha em guerra. Como todo bom reino, este reino deve promover a guerra. Minha tia estava com caxumba. Uma rainha não pode ter  caxumba. A caxumba era surda e não ficou sabendo deste édito real. Se minha tia fosse uma rainha esperta teria declarado guerra à caxumba. Mas ela preferiu deixar o inimigo aparecer, aquela caxumba infame passeando em uma rainha. Não quero ser um rei com caxumba, por isso faço a guerra. O reino vizinho está infestado de caxumba. As galinhas e os ovos de gansos do reino vizinho estão infestados de caxumba. As laranjas do reino vizinho tem cor ruiva e as alfaces nascem no alto das árvores. Não bastasse isto, o reino vizinho possui um rei que não possui tios nem avós e a ama de leite da filha do rei vi Zinho é vesga. Como, provavelmente, meu filho terá que se casar com a princesa vi zinha, é melhor que fiquemos inimigos antes que isto aconteça. Não quero meu filho casando com uma princesa que teve uma ama vesga e que, pior, muito pior, possui um irmão que usa capacete de bombeiro e nem há boas estrebarias no reino vizinho. Os cavalos do meu inimigo não dão crias, muito menos as éguas. O rio que corta o reino vizinho está contaminado de pequenos peixes e por lá não se acha um só bom peixe que possa valer a pena passar uma noite pescando. O rei vi Zinho permite que o povo dance às terças e às quintas-feiras ele promove um concurso de canto com seu povo. O rei vi Zinho permite que os infiéis pratiquem suas práticas e que as mulheres possam comprar marrecos nas feiras, além de poderem usar botas e calças jeans quanto têm vontade. Além destas imoralidades o reino vizinho está para abrir uma estação de metrô com alto falantes na qual qualquer um poderá dar seu recado. Declaro a guerra,! A guerra está declarada! Preciso salvar meus súditos da imoralidade, da indecência, da caxumba e dos marrecos comprados pelas mulheres vizinhas nas feiras. Meu tio declarou a guerra a um reino além mar, mas como ele não sabia nadar nunca pode fazer a guerra. Eu sou esperto. Declaro a guerra a um reino vizinho, amigo e conhecido, em que se pode guerrear durante o dia e vir dormir no meu bercinho a noite, um pouco após a papinha. Não, nada de bondades! Serei cruel com o inimigo. Deixarei seus cães criarem pulgas e não lhes darei as sobras do jantar. Os criados do reino vizinho serão mantidos. O rei e a rainha vi zinhos, bem como seus filhos, serão declarados escravos e terão que se converter em canabais. Canabais são uma espécie de educadores morais que eu institui em meu reino quando os meninos com menos de trinta anos quiseram deixar de usar camisolão. O reino vizinho precisa a com urgência de canabais e terá suas fronteiras fechadas. Além de salvar meu povo, salvarei o povo do reino vizinho que está a cair nos precipícios das trevas graças às moralidades do seu rei que come aspargos com queijo e cerveja toda quarta-feira às quinze horas. Logicamente que eu poderia declarar guerra ao reino vizinho da esquerda e não ao da direita, ou mesmo ao do norte ou ao do sul, que aliás era o meu preferido para batalhas campais devido a imensa praia que possui e seria mesmo maravilhoso tomar banho de mar durante as lutas. Devo confessar que passei tardes pensando em qual seria o melhor reino para guerrear. Mas....

(Leonia Oliveira in O FIO DE ARIADNE http://www.portalescritor.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=955&friurl=:-O-FIO-DE-ARIADNE--Leonia-Oliveira-: )

DIÁLOGO ENTRE ARTEMIX E ARIADNE

Artemix: A amargura que carregas é teu escudo. Teces com ela a própria mortalha. Não
quero te iludir e não te iludo, mas em mim existe uma outra malha. Se não queres combater, não há combate. Mas nada impedirá que eu a mate. Pois embora não conheça o teu instinto, conheço bem o instinto que me guia, e se sou generosa em um dia no outro já não posso sê-lo. Se com uma mão abrando a agonia, com a outra distribuo o desespero. Se a quem aqui me trouxe eu causo alegria, a ti deve restar o pesadelo.

Ariadne: Assim é o instinto da aranha: quando tece é artista, quando captura é carrasco.
Mas se existe em teu peito tal barganha, se compensas o bem que causas com o mal que necessitas, se em ti não causa asco o coração que te acompanha ou, se antes, a ti não causa repúdio ser a própria aranha, ter dela a fibra te constituindo as veias, em mim a desilusão é tanta ao saber que quem, um dia, lutou contra o que o destino lhe dizia, com tal luta preparou a tua ceia. Se me vences ou eu desisto, a mim a sorte deste jogo é alheia. Bem pior ainda é o castigo de ter que levar comigo o fio que me armou a nossa teia.

(Leonia Oliveira in O FIO DE ARIADNE
http://www.portalescritor.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=955&friurl=:-O-FIO-DE-ARIADNE--Leonia-Oliveira-: )

CASA DE PEDRAS

Começo o projeto da Casa de Pedras,

A nova.

Onde morarei depois daqui.

As escadarias de pedra e os gatos de renda e os pôneis no jardim.

As estufas e os estúdios e os amplos espaços

De abrigar amigos.

A casa é tão linda que é impossível que

Não seja frente ao mar.

E vejo você.

E vejo o abismo que você vê.

Você já não percorre escadarias

Nem procura disfarçar que o amor que sente por mim é

Como se fora um disfarce para seu vazio.

A ausência que causou em mim

Foi comparável a ausência do barulho das ondas

Sem o qual a casa não pode haver.

Você procura furtar seus olhares,

Você passa, finalmente, sem que eu lhe perceba.

Sem que eu sinta novamente tal odor de frutas, de cavalos cavalgando na praia,

Definitivamente, você passou.

Agora você dá de jantar e depois almoça com os seus invasores

E já não se importa se lhe furtam a flor,

O jardim não é seu conhecido.


©leoniaoliveira

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Eu frequento tabacarias e atravesso a rua comendo chocolates. E, sinceramente, gostaria de ter escrito este poema.

Nunca fui de assistir muito teatro, mas de fazê-lo. Embora as comédias me atraiam mais, o drama é mais poético.

Gosto de Fernando Pessoa, de ele ser mais de um, de se fazer personagem para fazer poesia e estes dias vi um homem dizendo "Fernando Pessoa não tinha imaginação" dizia isto porque quando Pessoa falava da Tabacaria, aquilo tudo estava acontecendo. Achei tanta ignorância nesta afirmação que escutei a entrevista inteira.

Talvez se Fernando Pessoa dissesse: Tenho um rinoceronte que come chocolate enquanto lê a plaqueta da tabacaria, o estudioso (assim se denominava o tal) pudesse achar alguma imaginação em Pessoa.

Mas qualquer um pode escrever sobre rinocerontes que leem plaquetas. Pessoa, coitado, "só" tinha imaginação para criar outros eus.

Criar a história inteira de um personagem e cria-lo poeta. Coisa bem pouca, a se considerar rinocerontes brancos que, sem ter o que fazer, se põem de estudiosos pessonianos, imaginam-se Camões, e  falam  que Fernando não tinha imaginação.

leonia oliveira

EU QUERIA UMA CANÇÃO...

Eu queria uma canção

que não falasse de amores colaborativos,

nem dos amores que tive,

que tenho

ou que terei.

Quero uma canção que cante meu coração

Contando coisas boas de varanda e rede,

Sobre queijos e frutas colhidas

E sobre meu hábito de colecionar relógios.

De preferência quero uma canção

Que rime sapatos com óculos

porque também os coleciono

e que se arrume dentro de mim

como o sangue e as hemáceas.

algo que seja transparente como a cor dos meus olhos

a pupila e a irís que os gatos tem.

Melodia de bichos de pelúcias aos quais dou nomes

como Grubo, Homero, Ilíada, Lubiano e que encante

minhas bonecas de pano, minhas miniaturas de kinder-ovo

e meu kit-turismo.

Que comece no sul e percorra o país colecionando

Chapéus, cinzeiros, camisetas e barcos

e que não se preocupe com fotos

porque o que fica é o ar que respirei.

Quero uma canção que seja uma declaração

De mim mesma.

®leoniaoliveira

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

( descida de Dionisio em Naxos em O FIO DE ARIADNE)

Dioniso seus leões desencilha

E, em uma Naxos em que brilham

Fios das lâminas de treinos e combates,

Obstinadamente ele trilha,

Como os piratas que pilham,

Para descobrir desta jóia, qual o valor do quilate.

Se a tomará como sua

Ou se a tomará por resgate.

Mas quando enfim chega perto

A Ariadne adormecida na areia,

Toma o mar por deserto

E o sol por centelha

Tamanho é o esplendor

Que a mulher, ali, lhe causa

Que a tesouro qualquer ela humilha,

Brotando das areias da ilha,

Hipnotizando Dioniso de amor.

E, assim, sem conseguir dizê-lo,

Dioniso, o exímio cantor,

Ao corpo de Ariadne dedilha

Como se fora uma lira

E ele, o único tocador.

Considera-a bem mais que uma rainha

E lhe procura o anel de selo

Para descobrir-lhe a família,

Para descobrir de qual vinha

Ele ainda não era o senhor.

Embora os dedos não possam dizê-lo,

Dioniso não perde a esperança

E lhe procura a coroa.

À cabeça de Ariadne ele alcança

E talvez, sem o querê-lo,

Mas para tramar esta loa,

Desfaz-lhe a trança do cabelo.

leoniaoliveira